Copa do Mundo, Enchentes, Solidariedade e Ações de Governo
Vou fazer aqui uma reflexão, talvez mais um questionamento, sobre o que motiva a população e o governo a fazerem de modo extraordinário o que deveriam fazer constantemente: ajudar uns aos outros e executar obras que beneficiem a sociedade.
Passamos recentemente (espero que tenha acabado) por um período de fortes chuvas e inundações no nordeste brasileiro. Vimos cidades grandes, como Salvador, Recife e Fortaleza, e cidades pequenas, no interior, sofrerem com o aumento do índice pluviométrico. Destruição de casas, ruas e empresas, morte, fome, desabrigados.
Mais ou menos no mesmo período, vivemos a expectativa da escolha das cidades que seriam as subsedes para a Copa do Mundo de Futebol no ano de 2014. Muita euforia no dia do anúncio oficial, muita festa, gente comemorando.
Em ambos os casos tem havido uma mobilização muito contundente. De um lado a população mais abastada e menos afetada pela tragédia das enchentes mostra força e organiza campanhas de doação de alimentos, roupas e remédios. Desde indivíduos isolados até empresas que dispendem esforços logísticos no intuito de ajudar a distribuir o que vem sendo arrecadado. Minha esposa e eu também organizamos uma campanha de doação no edifício em que residimos e obtivemos uma resposta satisfatória da vizinhança. Do outro lado, governos municipais se esmeram em apresentar projetos ambiciosos de modernização e ampliação não só dos estádios, mas da rede hoteleira, sistemas viários e de saúde, investimentos em educação e capacitação de pessoas, enfim, medidas que trarão incontáveis benefícios para as cidades envolvidas.
Observem que não há ironia nas minhas palavras quando me refiro aos projetos ligados à Copa. Eu realmente acho importantes esses projetos, os benefícios são tangíveis.
Mas o pensamento que me levou a escrever esse post foi o de que eu mesmo preciso ajudar mais as pessoas, não só quando há enchentes. Ora, tem gente sem casa e sem comida aos montes nas ruas! E não são desabrigados só por causa da chuva, os fatores que os levaram a essa condição são muitos. Sempre existiu gente pobre, tanto nas ruas das grandes cidades quanto nos sertões castigados pela seca, gente sem terra para produzir, sem acesso a luz elétrica, ensino fundamental, saneamento básico. Todos os dias vemos gente pedindo comida nos semáforos e esquinas. Precisamos ajudar mais, doar mais e constantemente. Essa mesma bondade súbita pós-enchente deve permear nossos dias, fazendo com que nos lembremos sempre que enquanto estamos aqui na frente do computador, no ar condicionado, tem alguém segurando no colo o filho que chora de fome.
Desenvolvendo mais esse raciocínio, percebo que os problemas que devem ser solucionados para que uma Copa do Mundo seja realizada no Brasil também estão presentes há muito tempo. As ruas que são estreitas e esburacadas estão assim há muito tempo. A “desculpa” para se gastar tanto em tão pouco tempo é a de que os efeitos benéficos se farão sentir depois da Copa, quando a população desfrutará dos aprimoramentos realizados. Mas se há como arranjar 50 bilhões de reais e fazer tudo ficar pronto em menos de três anos, por que não fazer isso simplesmente porque é preciso? É preciso melhorar o trânsito nas cidades grandes, é preciso espalhar postos de saúde, é preciso capacitar pessoas para o mercado de trabalho, investir em turismo, em ciência. Não necessário que uma Copa do Mundo aconteça pra que essas necessidades surjam “do nada”.
Acredito que as enchentes catastróficas não possam ser evitadas, mas os “pequenos” efeitos como ruas alagadas, desabamento de encostas, etc poderiam ser evitados com investimento em moradia, esgotamento sanitário, limpeza urbana. Se esses investimentos fossem feitos sempre com o mesmo empenho e seriedade com que estão sendo tratados agora, essas obras anunciadas não precisariam ser feitas a toque de caixa, a escolha do Brasil como sede teria sido mais tranquila, enfim, já estaríamos com meio caminho andado.
Vi também que esse fenômeno de motivação da sociedade e do governo parece ser um padrão, já que não é a primeira vez que acontece. Basta lembrar do Pan do Rio e das enchentes (coincidência?) em Santa Catarina. Fica a sugestão de reflexão e o convite para os comentários. Abraços.